28 março 2014

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Porque a poesia enriquece a alma... #8


Teus olhos entristecem
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem...
Não me ouves, e prossigo. 

Digo o que já, de triste, 
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.


Olhas-me de repente 
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.

Continuo a falar. 
Continuas ouvindo
O que estás a pensar, 
Já quase não sorrindo.

Até que neste ocioso 
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil. 

Fermando Pessoa, In "Cancioneiro"

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