17 janeiro 2016

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A Abadia de Northanger (Opinião)

"Quem tivesse visto Catherine Morland em criança nunca poderá supor que nascera para heroína". Até receber o convite da família Allen para passar uns dias no balneário de Bath, em Inglaterra, a jovem Catherine sentia-se amaldiçoada pela sorte. Todavia, nas termas descobre um mundo até então desconhecido e deixa-se seduzir pelos longos bailes bem frequentados. Completamente rendida à vida mundana, Catherine faz-se amiga da bela Isabella Thorpe e perde-se de amores por dois dos mais distintos jovens da cidade: o simpático John Thorpe e o espirituoso Henry Tilney. Mas é na visita à Abadia de Northanger, propriedade ancestral dos Tilney, que a nossa heroína, fascinada pelos romances góticos, vai viver a sua maior aventura. Mergulhada no espírito sinistro da majestosa mansão e completamente toldada por visões romanescas, Catherine imagina crimes, mistérios e conspirações. Serão as suas fantasias verdadeiras?

OPINIÃO

A frase com que é iniciada esta obra - "Quem tivesse visto Catherine Morland em criança, nunca poderia supor que nascera para heroína" - é, para mim, uma definição perfeita sobre esta história.
Escrito entre 1798 e 1979, e publicado após a morte da autora em 1817, A Abadia de Northanger é um romance diferente dos outros romances de Jane Austen. Para começar, é uma obra que fala sobre romances e onde Austen procura compreender de que material eram feitas as heroínas. 
Como se estivesse sentada à lareira ou debaixo de uma árvore no jardim, num dia soalheiro, a autora vai contando a sua história, usando algum humor negro e a ironia, chegando mesmo ao ponto de ser cínica. Porém, ao invés de utilizar, como é habitual, a sua protagonista como sua porta-voz nas críticas sociais, é o cavaleiro andante - Mr. Tilney - que, com o seu humor irónico, vai dando as alfinetadas na sociedade da época. 
Na verdade, para quem está habituado a protagonistas fortes criadas por Austen, Catherine Morland deixa muito a desejar. Vinda de uma família que não tem nada que a distinga, Catherine é tão desinteressante quanto uma menina naquela altura poderia ser. É uma jovem teimosa, impulsiva e barulhenta, que só começa a tornar-se bonitinha aos 15 anos, idade em que se torna mais feminina e menos maria-rapaz. De coração bondoso e muito ingénua em relação ao mundo lá fora, é considerada pela própria autora como um pouco burra e preguiçosa. Para além disso, demonstra ter uma imaginação fértil, devido a todos os romances góticos que leu. Ou seja, em comparação com muitas das personagens femininas que Jane Austen criou, Morland é uma idiota que almeja ser uma heroína. 

Mas dos quinze aos dezassete anos preparava-se para ser uma heroína. Lia todas as obras que as heroínas devem ler para enriquecer os seus conhecimentos com aqueles assuntos que tanto auxílio e alívio prestam nas vicissitudes das suas vidas tão cheias de acontecimentos.

É através da fascinação da protagonista por romances, que a autora critica de modo brilhante a fama que estes tinham na sua época e, ao mesmo tempo, defende esse género literário, que era na sua maioria escrito por mulheres e considerado de 2º categoria. Mesmo ponderando sobre a influência que romances inúteis podiam ter na personalidade de uma jovem ingénua, Austen confessa ao leitor que não irá denegrir os romances como muitos escritores o faziam mas logo se contradiz mostrando Morland a fazer figura de imbecil, ao criar e deixar-se levar por um enredo digno de um romance gótico, perante a pessoa amada. 
E aqui chegamos a outro ponto que, para mim, é diferente do habitual nos restantes livros desta autora - o romance entre Catherine e Henry Tilney. Tilney está entre um dos personagens masculinos mais queridos das fãs desta escritora e, agora, eu compreendo o porquê. De ar misterioso e maneiras cavalheirescas, Tilney é um homem com um grande senso de humor, responsabilidade, ternura e sensatez. Sendo um personagem tão inteligente e carismático, confesso que não compreendia o que este via na pobre Catherine. Pelo menos, até a autora elucidar-me sobre esse assunto:

Mas Catherine não conhecia as suas próprias vantagens. Não sabia que uma rapariga simpática, com um coração afectuoso e um espírito muito inculto, não podia deixar de atrair um homem inteligente, a não ser que as circunstâncias fossem muito desfavoráveis.

Ou seja, não só o seu carácter generoso conseguia cativar Tilney como também a sua falta de cultura. Sem dúvida, um amor diferente se compararmos as relações de Elizabeth e Darcy ou de Anne e Wentworth. Reconheço que não foi algo que me agradou muito.
Ainda assim, é através deste amor e das desventuras que Catherine vai passando ao longo da obra, que esta cresce e se torna uma jovem mulher, diferente da menina do início do livro. É só mesmo nos últimos capítulos que eu, realmente, comecei a ver na personagem o nascer de uma heroína. 
Quanto aos restantes personagens, as suas personalidades são muito fáceis de compreender após breves diálogos e atitudes. Entre os mais importantes, temos os Thorpe, interesseiros e manipuladores, e os Tilney, generosos e humildes. Gostei bastante da forma como a autora fez a distinção entre estas duas famílias e o modo como estas influenciam Catherine. E como não podia deixar de ser, a 'Maria vai com todas', fútil e vaidosa está caracterizada na personagem de Mrs. Allen, que, ao contrário do que eu esperava, não é uma pessoa muito irritante na história.
Relativamente às coisas de que não gostei, tendo já experimentado ler o livro em inglês e depois acabando por o fazer em português, senti que na tradução perdeu-se um pouco da ironia que é característica do Mr. Tilney. E realmente fiquei com pena que isso tivesse acontecido. 
Em suma, A Abadia de Northanger é um romance leve e breve, onde não existem tantas reviravoltas, quando comparado com os outros livros de Austen. Uma obra que, por criticar especialmente romances góticos, tem também uma espécie de atmosfera gótica que me agradou.
É considerado um dos livros menos populares entre os fãs mas do qual gostei imenso, tornou-se um dos meus favoritos, exactamente por ser diferente.

…deixo, a quem esteja interessado, o cuidado de apreciar se o propósito desta obra é recomendar a tirania paterna ou recompensar a obediência filial.


1 comentários:

Unknown disse...

Adora é pouco eu amei!! sua critica Carla cada pontinho descrever muito bem o que pensa dos personagens e o que acha em cada um deles...e dessa linda obra, sei que de deu trabalho mas eu amei de coração, adorei sua opinião! :D

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