28 abril 2013

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Perdida nas páginas #15

"- Consegue lembrar-se? - perguntei.
- Eu vi-o - repetiu -, mas agora desapareceu. Acho que eu estava amarrada. Não me consigo mexer. Oh, porque é que eu não me consigo lembrar? - De pronto, virou-se e encarou-me. - Faça isso outra vez.
- O quê?
- O que acabou de fazer. Tenho a certeza de que me vou lembrar.
Lentamente, sem tirar os olhos dos meus, afrouxou a écharpe, revelando o seu pescoço ainda magoado. Pegou-me na mão com os seus delicados dedos e levou-a até ao pescoço, tal como tinha feito da primeira vez que a vira. Tacteei a pele macia debaixo do queixo dela, tendo o cuidado de evitar as equimoses com pior aspecto.
- Alguma coisa? - perguntei.
- Não - sussurrou ela. - Tem de fazer o que fez antes.
Não dei resposta. Não sabia se ela se estava a referir ao que eu fizera na esquadra da polícia, se ao que eu tinha feito há um momento.
- Estrangule-me - disse ela.
Nada fiz.
- Por favor - disse ela -, estrangule-me.
Pus o indicador e o polegar no sítio do pescoço dela em que estavam as marcas avermelhadas. Ela mordeu o lábio - deve ter doído. - Uma vez tapadas estas equimoses, não se via qualquer vestígio do ataque anterior - só se via o seu pescoço delicadamente torneado. Apertei-lhe a garganta. Imediatamente, os olhos dela cerraram-se. 
- Com mais força - disse, com voz baixa.
Com a mão esquerda, agarrei-lhe o cóccix; com a direita, estrangulei-a. As costas dela curvaram-ser, a cabeça tombou para trás. Ela agarrou a minha mão com firmeza, mas não tentou puxá-la. 
Ela abanou a cabeça, de forma débil, ainda com os olhos cerradois. Puxei-a mais firmemente para mim, apertando-lhe o pescoço com mais força. A respiração dela ficou presa na garganta, depois parou por completo. Os lábios dela, vermelhos-vivos, apartaram-se.
Não é fácil para mim confessar as reacções absolutamente impróprias que me assaltaram. Nunca tinha visto uma boca tão perfeita. Os lábios dela, ligeiramente inchados, tremiam. A pele dela era da mais alva cor de creme. O cabelo, comprido e brilhante, uma cascata dourada pelo sol. Puxei-a ainda mais para mim. uma das mãos dela repousava no meu peito. não sei quando ou como é que fora lá parar. De repente, dei-me conta de que os olhos azuis dela estava a olhar para os meus. Quando é que se haviam aberto? Ela estava a tentar pronunciar uma palavra, não me tinha apercebido disso. A palavra era: «Pare».
Larguei-lhe a garganta, à espera que ela fosse arquejar desesperadamente. Tal não aconteceu. Em vez disso, ela disse, tão suavemente que mal a ouvi:
- Beije-me."

Excerto do livro A interpretação do crime, de Jed Rubenfeld

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