Passei o dia seguinte triste: em parte por Ellen estar doente e em parte por desejar que o meu pai soubesse das minhas visitas e as aprovasse. Mas, depois do chá, o luar cobriu tudo; e enquanto eu galopava, a tristeza foi-se dispersando. - Terei outro belo serão - pensava comigo mesma; - e o que é melhor, o meu querido Linton também o terá. - Subi o jardim deles e ia dar a volta pelas traseiras, quando o tal Earnshaw me apareceu, pegou nas rédeas e convidou-me a entrar pela frente. Acariciou o pescoço de Minny, dizendo que era um belo animal e que parecia querer falar com ele. Disse-lhe que largasse o meu cavalo ou se arriscaria a receber um coice. Ele respondeu, na sua pronúncia vulgar: - Não pode fazer muito estrago - e examinou as patas de Minny com um sorriso. Tive vontade de fazê-lo experimentar, mas ele afastou-se para abrir a porta e, ao fazê-lo, olhou para a inscrição, em cima e dise com uma voz estúpida mistura de timidez e orgulho:- Miss Catherine! Já sei ler aquilo.- Óptimo! - exclamei. - Vamos ouvir, então. Ficou inteligente!Ele soletrou e leu, sílaba por sílaba, o nome "Hareton Earnshaw".- E os números? - perguntei, encorajando-o, ao perceber que ele tinha parado.- Ainda não sei ler isso. - respondeu.- Fogo, que burro! - exclamei, com uma gargalhada.O pateta ficou a olhar para mim, com um sorriso a pairar nos lábios e uma ruga entre os olhos, como se hesitasse em rir também: como se não soubesse ao certo se a minha gargalhada fora fruto de uma agradável familiariadade ou - o que realmente era - expressão de desprezo. Acabei-lhe com as dúvidas ao recuperar a gravidade e dizendo-lhe que fosse embora, pois viera visitar Linton, e não ele. O pateta corou - o luar bastava para que se pudesse ver isso -, deixou cair a mão da porta e foi-se embora, o retrato vivo da vaidade ferida. (...)
Excerto do livro O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë








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